segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O rezador



Cinco horas da manhã,
chinelos arrastando cansados,
saudosos, já descompassados...
De tão longe, visita terçã.

Mãe Santa, o conhecido
Preto Velho dos arredores,
tirava, dos males, os piores
antes de meu pai se ver nascido.

Minha avó, já maltratadinha
catava, cedo, ervas de bênção
e já se iniciava a sessão
com charuto e ladainha.

Era reza das mais fortes,
o curandeiro não aquietava...
Se então as “foia murchava”,
é que diziam-se as sortes.

E o velho já bem suado,
ia dar, às ervas, o devido fim
e, sem sequer olhar pra mim,
passava com ar de enfezado.

E receitava alguns banhos
mais umas rezas e infusões
para afastar as maldições,
que se podiam ver nos sonhos.

E Preto Velho lá se ia,
quase desmaterializava...
Eu nunca soube onde morava
e ninguém sua casa via.

9 comentários:

Lapa Levana disse...

Soluz,

Tu sabe que sou sua fã? Das coisas que escreve, como escreve...textos variados, você não segue somente uma linha...digo assim, somente sobre uma tal coisa. E a forma como tu cria ou como te chega, sempre traz algo como lembranças, alertas ou observações... "O rezador", lembrei de alguns que já vi tempos atrás...ainda menina.

Bênçãos sempre!

Victor disse...

E do velho mesmo que de longe,
Vinha a sombra
Da vela translúcida
Do ar que dele, se transformava.

.'.

florzinhamimosa@hotmail.com disse...

Soluz, concordo com o primeiro comentário, você nunca segue uma linha. Que eu gosto do jeito que você encaixa as palavras seria dizer o óbvio. Seus temas sempre me agradam por demais. Certa vez eu li uma frase do Dostoyevsky "se quiser ser famoso fale de sua vila" e acho que é isso que torna seus textos tão encantadores. É sempre um trechinho da sua "vila". Claro que também escreve as provocações de suas musas, mas, é muito bom ler as revelações de sua história sentida, captada ao longo de seu caminhar e transformada em textos como esses. Mesmos que não seja autobiográfico é recheado de tanta verdade de seu universo que é como se fosse.
Resumindo pra não me alongar muito...risos: ADOREI!!!

beijos
i.

Damaris disse...

Era reza das mais fortes,
o curandeiro não aquietava...

Como eu amo as linhas de trabalho da minha religião. Soluz concordo com tuas palavras e admiro o carinho com o qual você se referiu aos nossos pretos velhos.
Siga sempre em frente meu amigo em paz e harmonia !!!
Beijos

Taysa disse...

Me recordo de momentos em que voinha me levava a rezadeira para tirar os olhados, eram momentos tão distintos, tão envoltos de magia, em tempos que nao voltam mais.
Lembro ano passado uma aluna me levou a vó dela p/me rezar...ela achava q eu precisava, fui...lá todo aquele ritual que ha anos nao vivia se repetiu, sai de lá tão bem...revivendo sensações ha mto n sentidas.

Lendo seu texto me vem a percepção de que nao so eu vivi as magicas das rezas, dos banhos, das infusoes, de ver e saber das ervas importantes para certas curas.

Mto acertado...reintero os escritos de outros q comentaram...es um escritor mto bom.

Livre!!!

Rodrigo disse...

A magia é o ponto principal dos versos desse cabra, no meu modo de ver.
Magia gramática, magia semântica, magia de idéias, magia, magia e pronto.
Preto velho de uma infância, o preto velho eterno que não se sabe real ou brincadeira, mas que se sabe de verdade, como toda brincadeira de criança realmente é.
No final, é tudo de verdade, menos a dúvida.
Abraço, irmão!

Anônimo disse...

oi ...

por isso que digo que você é cabeção!
Por acaso, qual é o tamanho da sua cabeça, do seu coração, em que tempo você vive?

onde está agora??

beijo

sua musa

Magrelinha disse...

Lembrei da minha infância agora.
"Preto Velho" já esteve lá em casa algumas vezes.As visitas eram sempre sem avisar. Eu morria de medo dele.Acho que era o medo normal do que não se conhecia e por não entender o "motivo". Me escondia debaixo da mesa e tremia igual "vara verde",como diz minha vó.Na verdade aqueles momentos me fascinam até hoje.
Beijo

Selene disse...

E esse Preto Velho...será que ia, ou será que la estava, e por isso mesmo nao era visto?

Beijos,
Irmão.