sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Dança de Kali - 04/08/2009

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Ontem, pela tarde, ele olhava, na tela do monitor, o espaço em branco do seu editor de textos e as idéias simplesmente não lhe ocorriam. Ele queria escrever algo picante, aquele texto novo, com um tom sutil de erotismo extasiante, mas as únicas imagens que lhe saltavam o levavam a voltar dezoito anos no tempo. Ontem sua filhinha completaria dezenove anos. As reminiscências do trágico acontecimento simplesmente não lhe abandonavam, mesmo depois de todas as terapias às quais se submeteu e as caixas de tarjas pretas que teve de absorver. Sobretudo, sua mente era consumida pela culpa que sentia, pois era ele quem estava ao volante naquela manhã, quando suas esposa e filha de um ano de idade desapareceram da sua vida.

Talvez se eu tivesse dormido apenas um pouco antes de pegar a estrada... Talvez se eu não tivesse bebido tanto naquela noite... É, por todos esses anos ele vivia consumido e quase podia reviver a lembrança da última visão que teve delas antes de desmaiar e entrar em coma... O carro estava de ponta a cabeça, a alguns metros se encontrava o corpo inerte da filha estendido sobre o asfalto e ao seu lado estava a esposa com um grande ferimento na testa, mas ainda presa pelo cinto de segurança. Um ano e meio depois, quando saiu do coma, aos poucos foi tentando se reintegrar à vida social, mas vivia em regime de quase total reclusão. Pensou que seria melhor mudar de endereço, pois a casa onde viveu com sua família certamente lhe traria recordações desoladoras. Abandonou seu antigo negócio, pois a falência seria inevitável desde que ele não se encontrava em condições de administrar a livraria que mantivera em sociedade com a esposa. Acabou indo morar em outra cidade. Publicou um livro de contos eróticos no qual havia trabalhado por dois anos antes do acidente, esta publicação foi largamente aceita e ele pôde viver muito tempo de forma confortável, dedicando-se, desde então, a escrever colunas nos jornais locais, eis que era Jornalista.

Mas ontem, por algum motivo, além é claro de ser a data na qual a filha faria dezenove anos, ele sentia mais forte o sofrimento da perda. Tentava fixar a atenção na tela em branco, mas, inquieto, não conseguia a inspiração necessária para escrever aquele conto. Deixou tocar um CD de Jean-Luc Ponty, mas o álbum Aurora não condizia com aquela ocasião e ele, como todo escritor que precisa sentir bem seus momentos, percebeu que a música necessária ao êxtase do seu sofrimento não estava ali ao alcance. Pensou que estava mais propenso a escrever o roteiro para um trash movie qualquer. De repente, um arrepio lhe percorreu o corpo e, embalado pela sétima faixa do trabalho de Ponty, lhe veio algo que julgou controverso, sentiu uma excitação louca, algo que já não sentia desde o dia do acidente, embora tivesse se envolvido com algumas mulheres. Repentinamente, ainda um tanto sobressaltado, lhe ocorreu também a vontade de uma dose de whisky, logo ele que havia prometido nunca mais por uma só dose de álcool na boca. E já por volta das vinte horas, algo no álbum Aurora, Between You and Me, com as cordas vibrantes do violino de Ponty, lhe apontavam o caminho da night club mais próxima.

Tomou banho, vestiu um jeans surrado e uma camisa vermelha básica, calçou meias brancas e um tênis preto com detalhes brancos já um tanto roto, queria parecer despretensioso. Às vinte e uma horas pediu um taxi pelo telefone e em trinta minutos falou ao taxista que parasse a aproximadamente cem metros da entrada da Volúpia Night Club, pois não queria revelar onde pretendia ir. Ao descer do carro, pôs-se a andar na direção contrária da qual estava seu destino, mas foi só o taxi dobrar uma esquina que ele tornou à direção certa. Caminhou lentamente, pensando no que estava fazendo, o que lhe deu na cabeça, e disse para si: que tudo vá pro inferno, eu já estou dentro dele mesmo! Pagou o ingresso e, ao chegar lá dentro, escolheu um lugar próximo do balcão, pediu um cowboy. Estava terminando a apresentação de uma negra linda, cabelos encaracolados compridos até a cintura, nome de guerra Bela. Seguiu outra apresentação, agora de uma loira, Flora, que, aos olhos dele, pareceu um pouco acima do peso para estar se exibindo ali na pista, mas que ainda assim era bonita com aquele corte chanel e os lábios carnudos salientados por um forte batom vermelho. Levantou-se e caminhou ainda não muito excitado, parecendo um tanto indiferente às apresentações que se seguiam, prestando atenção mais na variação de cores das fracas luzes que alimentavam o lugar com uma energia misteriosa e sedutora.

Estava agora sentado próximo à pista de dança, aí poderia, talvez, colocar umas cédulas nos biquínis das dançarinas. Poderia observá-las melhor e sentir melhor, queria saber onde a excitação poderia levá-lo. Ouviu ecoar o nome da próxima dançarina... Kali! Ela entrou lenta e misteriosa, com seus olhos negros brilhantes como se fossem dois ônix, com seus cabelos muito lisos e escuros, pele pálida e um corpo com proporções perfeitas. Kali dançava lenta e sinuosamente, executando movimentos precisos, marcando bem o compasso de Sleepwalk, em uma versão The Big Band. Só então ele se viu fascinado. Ela fixava o olhar nos olhos dele, parecendo haver algo mágico naquele momento. Ele sentia seu corpo tremer com a presença, com a dança, com a suavidade tocante e eloquente dos movimentos dela. Ela deixava cair muito lentamente o seu tubinho preto, primeiro suas costas à mostra, ainda com os seios cobertos por um sutiã também preto. Ele quase não piscava, levando mais um trago do whisky à boca. Ela deixava, ao som gritante da guitarra, cair totalmente o vestido, mostrando agora todo o corpo apenas coberto por seu lingerie preto. Ele estava paralisado, sentido aumentar a ereção inevitável. Ela continuou a dançar, mas agora parecia fazer só para ele, com os timbres agudos da música a mover não só seus passos, mas algo que estava dentro também. Ele a desejava mais do que podia ter imaginado que desejaria alguém. Ela agora estava nua, seus seios fartos e empinados, corpo esguio... Cabelos, olhos e pelos pubianos negros, contrastando lindamente com a pele muito clara. A dança terminou, era a última daquela noite.

Ele aguardou do lado de fora, tinha a esperança de vê-la sair e, quem sabe, propor algo para fazerem. Ele poderia ficar plantado ali por toda a noite, mas não demorou mais de vinte minutos para que ela saísse. Ele foi se aproximando meio tímido, temendo a reação dela. Ela percebeu que ele chegava. Ele a cumprimentou com um boa noite. Ela se virou para ele lentamente e respondeu com um olá, enquanto parecia buscar algo na bolsa. Ele não sabia como falar e nem o que falar, mas gaguejou um “quequero você”. Ela fingindo alguma indignação respondeu “não faço programas”. Ele sem jeito se desculpou, dizendo que não queria ter passado essa idéia e que em verdade queria conhecê-la melhor, mesmo sabendo quão clichê estava sendo. Ela convidou-o a caminhar para que pudessem conversar e, já a certa distância da casa de shows, informou que não podia ficar claro naquelas proximidades o envolvimento dela com um cliente do estabelecimento. Ele, cabisbaixo, falou que compreendia. Ela disse que nunca na vida havia sentido atração por alguém da platéia, mas que algo nele mexeu muito com ela. Ele ficou calado sem saber o que dizer. Ela disfarçadamente passou um papel com algo anotado e se foi. Ele andou na direção contrária e leu o bilhete que dizia “temos de nos ver ainda hoje, me ligue” e seguia, anotado, o número do celular.

Meia hora depois, imaginando ter passado os riscos relativos ao trabalho dela, ele telefonou. Ela atendeu parecendo aflita. Ele perguntou onde se encontrariam. Ela deu o endereço de um pequeno hotel em um bairro nobre da cidade, pedindo que ele estivesse na entrada em uma hora. Os dois se encontraram e o beijo foi a primeira coisa que disseram um para o outro, um beijo demorado, cheio de desejo, seus corpos vibravam por inteiro. Entraram no hotel e ele, preocupado em ser cavalheiro, pediu o melhor quarto. Chegando ao quarto, outro beijo ainda mais demorado, suas línguas se encontravam freneticamente, ele sentindo o pulsar das veias do falo, abraçou-a forte, trazendo-a de encontro ao seu corpo. Ela se entregava, respiração forte, já tirando a camisa dele. Ele a despiu loucamente, como que por um instinto. Ela corria as mãos pelas costas dele, marcando-o com suas unhas negras. Agora, os dois já estavam completamente nus, ele alisando toda ela, podia sentir o calor entre suas pernas e a umidade que dali brotava. Ela segurou o falo dele, levando-o à boca, lentamente, parecia engolir por completo. Os dois caíram juntos na cama. Ele beijava os seios dela, descendo pela barriga, chegava às coxas e voltava a beijar a boca. Foi ela quem colocou ele deitado e, sentando sobre ele lentamente, levou-o para dentro de si, deixando escapar um gemidinho rouco e abafado de prazer. Ele, ofegante, apertava a cintura dela. Ela parecia dançar sobre ele, com movimentos circulares e suaves mexia com ele todo dentro. Ele a olhava nos olhos e gemia doido. Ela, de repente, apertou forte o braço dele, agora com movimentos mais intensos e permitindo-o estar cada vez mais fundo, mais dentro, gritou forte, gozou! Ela saiu daquela posição, ajoelhou-se de costas para ele, inclinou o corpo para frente, apoiou-se nos braços, queria que ele a possuísse como se fossem animais, de quatro, verdadeiramente naturais. Ele, de joelhos, segurou forte a cintura dela, penetrou-a com força, ela gemia e ele podia ver a tatuagem linda da flor-de-lis em sua nuca. Ela gritava, ele entrava e saia cada vez mais intensamente, ele caiu sobre o corpo dela, deitado sobre ela. Eles estavam juntos e sentiram juntos. Gozaram duas, três vezes. Amaram-se por toda a noite, como se conhecessem um ao outro em cada ponto.

Deitados, ela com a cabeça sobre o peito dele, relaxavam. Ele acariciava a cabeça dela e, por imaginar a diferença de idade entre eles, perguntou qual a idade dela. Ela respondeu que tinha dezenove anos. Ele perguntou qual o verdadeiro nome de Kali, ela respondeu Luciana. “É um prazer, Luciana”, disse ele. Ambos riram divertidos. Ele tocou o braço dela que estava caído sobre seu abdômen e notou uma marca de nascença, dizendo que era uma bela marca. Ela disse que certamente era herança dos seus pais biológicos. Ele ficou curioso e perguntou se ela não vivia com eles, ao que ela respondeu negativamente e disse que havia perdido seus pais quando ainda tinha um ano de idade. Ele perguntou em quais circunstâncias morreram os pais dela. Ela disse que não sabia ao certo, mas que a história que havia chegado ao seu conhecimento se referia a um acidente de carro, pois parecia que seu pai bebia muito. Ele se assustou, sentiu uma inquietação estranha, perguntou se Luciana era mesmo seu nome. A resposta foi que seus pais adotivos haviam batizado com esse nome, mas que o nome que os pais biológicos lhe deram era Ana. Aquela revelação foi como um forte golpe no estômago dele, uma lágrima escorreu, estava sem acreditar que poderia ser verdade... Ana, dezenove anos, marca no braço esquerdo... Possuído pelo desespero, pegou o braço dela e, ao prestar mais atenção na marca de nascença, disse suas últimas palavras: “eu não estava morto, filha, estava em coma... Inspiração... Conto...”. O coração se rendeu à sobrecarga das diversas emoções, ele não mais levantou daquela cama de hotel.

7 comentários:

Anônimo disse...

Oh achei que não ia postar no blog...
Como já lhe disse, adorei. Você sabe bem que gosto muito da sua escrita, sempre aprendo alguma coisa. Muito obrigada Ju pela oportunidade de ler coisas tão lindas e mágicas escritas por você. Ser Iluminado!!!!

Beijos cheios de saudade.

Com amor, Ly.

Monalisa disse...

É, você escreve bem! Devo mesmo passar mais vezes por aqui!
:)
Beijos!

Anônimo disse...

É brother, vc está conseguindo descrever muito bem um conto. Grande riqueza de detalhes. Siga esta trilha man!!!

abraço,

Paulinho

Isa Lorena disse...

Foi o conto de que falou naquele dia?
Muito bom, surpreendente e forte.

bjs

Ludmila ஜ Hadiyah disse...

Forte, surpreendente e instintivo. Gostei muito, acho que comecei bem no seu blog. Estou ansiosa pelos próximos.

Bjocas

santana disse...

Arrepiei! Misterioso e forte. Me remeteu a tantas outras fantasias e questionamentos acerca da espiritualidade e destino. Gostei. Bjs. Ane

Anônimo disse...

A vida é realmente cheia de surpresas! Moço de multiplos talentos, parabéns! O conto está ótimo. Espero está sempre me surpreendendo com seus textos e c/ seu dom.
Já te disse uma vez que quando eu crescer vou querer ser igual a você, não foi? rs! Pois é, vamos ver quando isso irá acontecer =P

Beijinho ;*
Lana